Logo Portal Ternura
19/11 - IBITINGA-SP
° °
Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

COMENTÁRIOS A RESPEITO DE BELCHIOR


Na primeira vez que ouvi aquela voz, ainda garoto, pensei que a estação de rádio estivesse de brincadeira. Aquele grunhido excêntrico e quase bizarro ainda por cima era melancólico e soturno, balbuciando que não estava interessado em nenhuma “txiuría”, em nenhuma fantasia, bradando que amar e mudar as coisas lhe interessava mais. Estávamos no final dos anos 80, no comecinho da minha adolescência. De primeira, sinceramente aquilo não me apeteceu, como também acontece com um uísque ou um bourbon para qualquer adolescente. Desce rasgando e não reanima, igualzinho como foi com “Alucinação” naquele dia (ou tarde, não sei – sei que era AM e um programa popular). Aqui, brindo o cearense mais genial que conheci com um café, enfim. Não que voltamos às boas, café e eu, mas só esse amigo fumegante e amargo para fazer a gente segurar tantos rojões, não, caro leitor? O que é que pode fazer um homem comum neste presente instante senão sangrar, hein, Belchior? Não há motivos para festa e eu também não sei rir à toa, meu caro.

                Dou uma passada rápida pelos portais de notícias brasileiros e internacionais, de direita e de esquerda, sérios e de entretenimento. Parece que dias ainda piores virão. Troco o disco, mas o cantor é o mesmo. Vai ser assim hoje. É o cara que completou 70 anos nesta semana, que inspirou esta crônica, que não sai do meu playlist desde que entendi, numa segunda audição mais cuidadosa, ainda moleque, que até a sua voz esganiçada não era pecha, mas estilo. Neste momento, ouço o disco de 1976, “Alucinação”, que tem dez músicas ao todo e absurdos dez sucessos radiofônicos, um fenômeno duplo, pois ninguém emplaca tantas canções nas paradas num mesmo elepê, ao mesmo tempo em que as confecciona com tanto primor, qualidade e texto esmerado. “Como nossos pais”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida”, “Alucinação”, “A palo seco” e “Fotografia 3x4”, por exemplo, estão neste disco. Em um só trabalho, Belchior criou uma obra de arte mais intensa, exímia e perene do que a esmagadora maioria faz em suas carreiras inteiras e somadas. “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua. A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia e, pela dor, eu descobri o poder da alegria e a certeza de que tenho coisas novas pra dizer”. Isso é lindo demais, precisa ser mais ouvido e apreciado.

                Aproveitei as voltas pelos portais e busquei as matérias que os cadernos culturais renderam ao Belchior nesta semana septuagenária para o músico. Quase todas elas diziam respeito ao seu sumiço social e, em tempos de sumiço quase geral do talento na música popular brasileira, os críticos deixaram de lado a obra do cara para especularem sobre suas contas atrasadas, processos por não pagamento de diárias em hotéis, possíveis pensões alimentícias e outras pequenezas relacionadas a um autor tão grandioso. E o seu canto torto cortando a nossa carne, há mais de quarenta anos, não deveria ser o assunto desses textos todos? Preservem esse coração de vidro ou, melhor que isso, ouçam “Coração Selvagem”, pois está tudo lá. Belchior escolheu brincar com a vida, a elegeu como namorada e com ela vai brincar a noite e a vida inteira. “Vida, eu quero me queimar no teu fogo sincero, espero que a aurora chegue logo. Vida, eu não aceito, não, a tua paz, porque meu coração é delinquente juvenil, suicida, sensível demais. Vida, minha adolescente companheira, a vertigem, o abismo me atrai: é esta a minha brincadeira. Eu estou sempre em perigo: o dia D, a hora H, a corda bamba, o bang, o clic do gatilho...

                Outra passeada pelas principais notícias dos jornais e revistas: a famigerada Proposta de Emenda Constitucional 241 e o provável agravamento da desigualdade social brasileira, mais de mil e cem escolas ocupadas por secundaristas revoltados com esse e outros desmandos governamentais, aumentos sucessivos de salários dos cargos de alto escalão, delações e mais delações sobre favorecimentos aos agentes políticos nacionais de todas as origens e orientações, religiosos e futebolistas ganhando eleições e espaço nas bancadas, cortes substanciais nos investimentos com saúde, educação e cultura, um juiz parcialíssimo alçado à condição de herói nacional, banquetes financiados por dinheiro público para negociatas escusas, nordestinos (como Belchior) sendo achincalhados por uma atriz em uma audiência pública sobre vaquejada, um imbecil tentando ser presidente dos EUA, uma secundarista de 16 anos defendendo o movimento no plenário da Assembleia Legislativa, negros sendo esculachados aqui e acolá, uma esquerda surda, burra e reticente, uma direita canalha e ensimesmada, um craque de 70 que se foi, outro gole de café, ainda que não devesse tomar. Ah, meu caro: o tempo andou mexendo com a gente, sim. E a felicidade já não é mais uma arma quente. Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda também em 2016. Aumento o volume: “eu era alegre como um rio, quando havia galos, noites e quintais. Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz”.

                Belchior, só entre nós aqui: diga para onde fugiu. Eu levo violão, alcatrão e não abro minha boca sobre o seu paradeiro, nem sob ameaça de prisão.

Câmara Municipal de Ibitinga

Últimas colunas

Antonio Tuccílio

Antonio Tuccílio

O policial militar de S. Paulo é um dos mais desvalorizados do país

O policial militar de S. Paulo é um dos mais desvalorizados do país
Deputada Estadual Márcia Lia

Deputada Estadual Márcia Lia

Extinguir municípios é virar as costas para o Interior

Extinguir municípios é virar as costas para o Interior
José de Paiva Netto

José de Paiva Netto

Inimigo silencioso

Inimigo silencioso