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16/09 - IBITINGA-SP
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Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

DESCULPA


Estou acabando de resenhar um livro chamado “A Desculpa”, parte menor de um trabalho muito mais ambicioso e amplo que venho desenvolvendo nos últimos anos, mas que não será assunto do nosso papo de hoje, pois quero falar aqui da afamada e notável “desculpa”, também conhecida como pretexto, subterfúgio ou o que você preferir, leitor. A obra é de Alexandre Werneck, saiu pela Editora Civilização Brasileira, tem pouco mais de 350 páginas e eu recomendo muito sua leitura. Não por coincidência, ouço “Sorry”, do contraditado álbum “Chinese Democracy”, de 2008, que serve agora como trilha sonora. Uso o tema como desculpa para ouvir a minha banda preferida: Guns n’ Roses.

                       Hoje não tem café. Restringi, pelo menos pelos próximos dias, o consumo do sagrado líquido negro a uma xícara bem servida pela manhã, porque ninguém é de ferro. A moka até é, mas não vem ao caso. Não posso dispensar um amigo tão fiel assim só porque ele vem me causando mais danos do que refrigérios (infâmia com esse companheiro quente, eu sei!) nos últimos tempos. De qualquer modo, nossas entrevistas rarearam. Azar o meu, que preciso mais dele do que ele de mim. Desculpe, amigo. Como diz a escritora Adriana Falcão, desculpa é um termo que pretendia ser um beijo. Axl canta aqui e faz coro ao meu pedido: “I’m sorry for you, not sorry for me. You don’t know who you can trust now or you should believe”.

                       Nunca vivemos antes um período de transferência de culpa tão intenso como o atual. Já percebeu, leitor, que ninguém mais tem culpa de nada, salvo os bodes expiatórios eleitos pela opinião pública para expurgarem os desacertos e equívocos de todas as partes? “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, cantou aquele baiano roqueiro que você sabe que eu adoro. E ainda que seja flagrado na ação ou que as provas da culpabilidade berrem em praça pública, eis que encontramos um jeito de trasladar o lapso para qualquer outro elemento ou circunstância, inclusive para o acusador, se for o caso.

                       Segundo o cuidadoso estudo de Werneck, entre as saídas mais empregadas quando a transferência de responsabilidade estiver absolutamente descartada, temos a clássica “é assim que as coisas são” ou a não menos famosa “todo mundo já fez isso um dia”. Se o culpado por determinada irregularidade for um anônimo, basta mobilizar seu networking (ah, mundo moderno que cria essas aberrações!) para impedir a notoriedade e divulgação de seus atos malfazejos. Se o dono da besteira for um famoso, aí entra em campo o que Werneck denomina “protocolo de pessoalidade”, quando o sujeito culpado aciona o biografismo, justamente como elemento singularizador utilizado para alterar o estatuto daquela situação específica. Ouvimos isso diariamente, mesmo que o papo não tenha relação direta com o assunto: “Tenho uma vida pregressa ilibada, sou um sujeito público comprometido com meus pares, trabalho desde criancinha pensando nos pobres e necessitados, blá blá blá”.

                       Por que ninguém assume suas falhas, por que ninguém toma para si suas transgressões e erros, sejam eles quais forem? Há adultos inocentemente colocados na sociedade, que sejam incapazes de saber que todos erram diariamente, alguns muitas vezes por dia? Claro que não. O zagueiro que comete o pênalti e levanta os braços em sinal de inocência, o adolescente que finge estar dormindo no metrô para não ceder sua vaga à velhinha de bengala, o aluno que faltou porque a avó morreu no dia da prova (tenho alunos com 30, 40 avós veladas e sepultadas...), o político que não sabia do escândalo no seu grupo íntimo de trabalho, o motorista apressado que avança o sinal vermelho e vai negar o ato porque atropelou o ciclista... mas “todo mundo faz”, não é mesmo? E relativiza-se ostensivamente a consagração da moral consagrada, como aponta Werneck.

                       A escritora Addie Johnson vai além e diz que “a desculpa é um procedimento de alongamento da verdade, operando a criação de uma elasticidade, uma margem de manobra moral, a ser usada cotidianamente como um músculo”. Constrói-se, então, uma narração sustentadora da ação cometida, que justifica para a sociedade e para o próprio criador daquele discurso a ação não prevista ou não aceita, dando a ela arrimo e amparo suficientes para que se pareça normal e regular. Gosto de pensar que Voltaire estava certo, quando dizia que “os homens erram e os grandes homens confessam que erraram”. Assumir a culpa e pedir perdão são atitudes nobres e notáveis, visto que todos erram.

                       Tecnicamente falando, a indiscutibilidade e a intensidade são duas dimensões muito estudadas da culpa ao longo dos anos. Quando a culpa é atribuída a uma pessoa (ou grupo de pessoas, associações, times, agremiações, partidos etc), afirma-se que algo com alguma gravidade foi inegavelmente cometido por aquele indivíduo ou grupo. A culpa é discutível? Seus efeitos foram devastadores? Havendo ou não punição por aquele ato, somente o agente daquilo que está em pauta pode chamar para si a responsabilidade pelo que foi feito. E aí dispensa-se, sobretudo aqui no Brasil, um leque interminável de desculpas, normalmente transferindo para longe os elementos que motivaram a falha. Guca Domenico, escritor, poeta, músico e um dos criadores da deliciosa banda paulistana oitentista “Língua de Trapo” (Ouça “Como é bom ser punk”, de 1985, e apaixone-se por essa banda!), escreveu o livro “1001 desculpas esfarrapadas”, que traz já na introdução uma desculpa, explicando o porquê de não serem 1001, mas apenas algumas desculpas componentes da obra: “Na verdade, a primeira versão dele foi perdida quando seguia para a editora, sobrando apenas essas poucas que aqui estão”. Está desculpado, Domenico, mas só porque a sua obra é muito boa e porque a sua vida pregressa é ilibada, produtiva...

                        Quando pensamos no famoso “caixa 2”, por exemplo, tão discutido em nosso país e tema de um capítulo inteiro do livro de Werneck, nós nos deparamos com um exemplo inconteste da desculpa como destacada artimanha das relações sociais. Todos os partidos políticos nacionais usam dessa evasiva estratagema desde sempre, toda a sociedade sabe que eles se valem deste instrumento ardiloso de variadas formas, todos sabem que numa sociedade séria, decorosa e íntegra isso não deveria acontecer... mas “é assim que as coisas são”, não é mesmo? E se o Padre Antônio Vieira denunciou a corrupção com o bem público já em 1655, no “Sermão do Bom Ladrão”, com príncipes e ladrões enchendo seus bolsos em detrimento do interesse coletivo, sabemos há séculos que não há desculpas apenas emocionais para apropriações indébitas e para vista grossa em relação a esses atos. O próprio Vieira nos ensina no seu primoroso texto que o culpado precisa, para se redimir, dar conta de restituir os prejudicados. E como fazer isso? Primeiramente, assumindo a culpa!

                       Nunca é tarde para um pedido de desculpas seguido de mudança de atitude, em relação a bobagens ou a grandes equívocos. E eu mensurando os erros, enquanto os chineses proliferam um poderoso adágio: “um erro da largura de um fio de cabelo pode causar um desvio de mil quilômetros”. Aqui sigo sem café, com essa soja apenas razoável, com cranberry e romã. Sejamos sinceros: isso é ruim mesmo. Axl canta no repeat aqui: “I'm sorry for you, not sorry for me. You don't know who in the hell to or not to believe”. E eu peço desculpas por parar assim, de repente. O espaço acabou. É assim mesmo. Não é culpa minha.

Câmara Municipal de Ibitinga

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