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20/09 - IBITINGA-SP
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Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

Homens em pedaços: a esperança também corre contra o vento


                       Nós estamos em frangalhos: britados, pulverizados, triturados, parecendo aquele infortunado vaso que levou a bolada irascível e precisa do craque do quarteirão, na pelada do fim de tarde, aquele que perde a tampa do dedão, mas não desperdiça gol nem poupa vaso de vizinha alguma. O moleque, pés encardidos, auspicioso, exala promessas pelos poros suados. Nós, por outro lado, quebramos. Somos a cerâmica azarada. Estamos despedaçados, reduzidos a incertos cacos. Em fragmentos, recolhendo raspas e restos, como cantou o Cazuza. Arruinados, resgatando os pedaços que ainda parecem fazer algum sentido. Tradição e Modernidade ririam das nossas caras e dessas peças amorfas espalhadas por todos os lados. Homero e Baudelaire, Virgílio e Eliot brindam suas biritas e dão de ombros para as cenas que estampam as ruas das nossas cidades.

                       Faz muito tempo que a gente não se vê por aqui, hein, leitor? Sigo vibrando em outras frequências e o afetuoso café ainda cumpre rigorosamente o seu papel, mesmo que seja para servir de combustível para que eu escreva outros textos, com propósitos muito distintos das crônicas semanais, nosso velho mundo em comum. Os jornais impressos seguem agonizando mundo afora e a tendência é que desapareçam por completo, como infelizmente aconteceu com o Matutino Express, veículo que foi nossa linha de contato por vários anos. Eis que aceitei, enfim, o convite sempre gentil do CCPR (é verdade que com um delay considerável) e estarei semanalmente aqui no Portal, depois desse hiato, para satisfação parcial da nação.

                       Ouço Bob Seger hoje, presente do querido amigo Porfírio, meu fisioterapeuta, que entende muito do vetusto e carcomido roquenrol, além de torcer para o Bugre campineiro, também tão sofrido e histórico. O som de Seger é um passeio seguro num carro com freios ABS e airbags. Apuradamente pontual e ajustada, mas não ordinária, sua música tem gosto de baunilha. Não extrapola nenhuma linha limítrofe, como Hendrix, Zappa, Zeppelin, Mutantes ou Doors, mas tem vocais, cordas, pianos e backing vocals primorosos. As canções não chacoalham a sua casa, mas fazem você revolver a cabeça, como manda o manual roqueiro. Em dias como os nossos, café e Bob Seger na veia coadjuvam e acolhem. Como canta o Anitelli, há tempo de dar colo e tempo de decolar. Para hoje, Bob Seger.

                       Semana final de Eleições Municipais me remete a um discurso que ouvi incansavelmente na casa dos meus pais, pelos mais de trinta anos que morei lá. A frase era algo como “nunca se meta em política, pois a política é suja”. Ou era isso ou algo muito próximo disso, às vezes um pouco mais suave, às vezes um tanto mais abrutalhado, dependendo do adulto que nos instruía. Segundo o que aprendemos, a política era suja, asquerosa e abjeta, matéria para pessoas que combinavam com esses adjetivos contaminados e maculados. O comando recebido nos nossos lares, de uma maneira geral, nos sugeria, recomendava, propunha, solicitava (por vezes ordenava!) que nos mantivéssemos alheios aos assuntos políticos, que desenvolvêssemos nossas qualidades e construíssemos nossas individualidades sempre à margem das questões que envolvessem a política. E se Aristóteles nos disse em “Ética a Nicômaco” que “a finalidade da política é o bem supremo e o maior cuidado dela é produzir certa qualidade nos cidadãos, tornando-lhes bons e capazes de praticarem belas ações”, sempre houve alguma discrepância entre o discurso de nossos pais e o que conheceríamos na adolescência e na adultez sobre o que era política, não? Aí não tem café, canção ou colo que resolva. Esperança e desespero se cumprimentam e se encaram, como numa pesagem de MMA.

                       De acordo com esse discurso tradicional dos progenitores em sua esmagadora maioria, seguimos anos a fio pensando que “política” referia-se àquela vida que se costuma levar como um agente político propriamente dito, investido de poder e portador de uma procuração popular obtida através dos votos em pleitos (como nesta semana), vida relacionada a um sistema que, entre outras ações comuns e ordinárias, contempla conchavos, propinas, negociatas, velhacarias, mancomunações, tramas, conluios e uma sorte interminável de arranjos, artifícios mais ou menos amparados pela própria legislação que criamos, geralmente garantidos pela não aplicação desses mesmos textos prescritivos com rigor. Confundimos as coisas, tomamos o sistema estabelecido pelo assunto. Mais café aqui. Muito mais. Consegue perceber, leitor, a contradição deste pedido aos filhos? Aristóteles nos explicou há 2300 anos que “a política legisla sobre o que é preciso fazer e do que é preciso se afastar para alcançarmos os bens individuais e o bem das cidades”. Definitivamente, um cenário onde os denominados homens livres seguem afastados da política porque a julgam suja, sórdida ou desprezível torna-se um convite irrecusável para que essas vagas sejam ocupadas em grande quantidade pelo sujeito que o mesmo filósofo grego chamaria de “homem mau”, aquele que age conduzido por suas más paixões e por interesses única e exclusivamente pessoais, em detrimento das cidades e do bem comum. Ainda utilizando um último termo aristotélico, o “homem bom” é aquele que age no interesse da comunidade e da pátria, sacrificando bens e rendas e conservando para si a nobreza das ações, imolando muitas vezes a sua vida pelos demais e escolhendo sempre o bem, inclusive quando ocupa cargos públicos. Assim sendo, querido leitor, a nossa omissão em relação às coisas políticas talvez seja a grande responsável por esse estado de coisas que enfrentamos em nossos dias atuais: fragmentados, destruídos, separados, contra o vento e contra as circunstâncias.

                       Agora Seger canta Against the Wind aqui, o que não poderia ser mais pertinente para a ocasião: “We were running against the wind. We were young and strong. The years rolled slowly past and I found myself alone. Surrounded by strangers I thought were my friends. I found myself further and further from my home and I guess I lost my way. I’m still running against the wind. I´m older now but still running against the wind”. Contra o vento e contra todas as circunstâncias, que apenas esperança e desespero sigam se digladiando. Quanto a nós, sentemos todos humildemente no chão da praça principal e recolhamos esses cacos disseminados. Se der, colamos o vaso. Se for impossível, limpamos essa nossa sujeira para o devir, ao menos.

Câmara Municipal de Ibitinga

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