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21/09 - IBITINGA-SP
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Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

NOTAS SOBRE O MAIS PREVISÍVEL IMPREVISTO


Por mais que tenhamos caminhado, nos últimos anos, para uma realidade muito mais frenética e buliçosa, repleta de acontecimentos desordenados e informações asfixiantemente múltiplas e também caóticas, antigas rotinas e rituais são relativamente preservados pela humanidade, como é o caso do que se vê na primeira semana de novembro, esteja você onde estiver. Aqui no Brasil, as pessoas reservam o segundo dia deste mês para lastimarem a perda de entes queridos para a Morte, levando flores para os locais onde depositaram seus restos mortais, proferindo preces em cabisbaixos murmúrios, mantendo o volume de seus televisores, rádios e computadores numa altura que consideram respeitosa, visitando igrejas, calibrando seus pensamentos para tudo aquilo que faz a figura do ausente vir à tona.

                        Quando afirmo que os rituais são apenas relativamente preservados, refiro-me ao fato de que nossos ascendentes mantinham uma relação ainda mais cerimoniosa e reverente com as questões relacionadas à Morte. Basta perguntar aos seus pais ou avós para saber que o silêncio era absoluto no 02 de novembro de outrora, quando muitas pessoas sequer se levantavam da cama, reservando o dia todo cautelosamente para a reflexão ou para o mais lacunar e dolorido vazio. Aqui bebo um café muito forte, mas não tão forte quanto o “Momento Num Café”, do Bandeira, uma das mais lindas homenagens que um poeta já fez para a Morte, poema predileto do meu amigo Scheel sobre o tema: “Quando o enterro passou/Os homens que se achavam no café/Tiraram o chapéu maquinalmente/Saudavam o morto distraídos/Estavam todos voltados para a vida/Absortos na vida/Confiantes na vida./Um, no entanto, se descobriu num gesto largo e demorado/Olhando o esquife longamente/Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/Que a vida é traição/E saudava a matéria que passava/Liberta para sempre da alma extinta”. Estar tecnicamente morto ainda significa estar vivíssimo, amigo.

                         A Morte deveria ser vista como poesia, não como tragédia, apesar do desconhecido sempre nos ser terrificante. Os mexicanos, que herdaram essa tradição de seus ancestrais indígenas, transformaram o que chamamos de Dia de Finados em uma das festas mais animadas e divertidas do ano, pois acreditam que o Dia dos Mortos é a ocasião anual na qual as pessoas que tanto quiseram bem quando vivas têm autorização divina para que visitem os vivos e celebrem com música, ótima comida, flores, velas, danças, incensos e reencontros de alma. Os brasileiros que já estiveram no México neste período do ano conhecem o assustador contraste entre as duas culturas em relação à “indesejada das gentes”, citando novamente o gênio pernambucano, que não sabia se sorriria ou teria medo, mas certamente a esperaria com o campo lavrado, a casa limpa e a mesa posta, com tudo no seu lugar. Temia, mas esperava.

                        Eis aí o grande lapso do brasileiro: nós não nos preparamos para absolutamente nada, desde nossa primeira atitude consciente até o desfecho (poético ou não) da existência para a qual fomos catapultados, sabe-se lá de onde. Os mesmos pensadores que se aventuraram a estudar rotinas e ritos dos brasileiros também fatalmente acabaram teorizando sobre nossa inabilidade quando o assunto é planejamento, preparo, elaboração de metodologia, planificação de ações e afins. Somos inaptos para o amanho, para o cuidadoso exercício do acautelamento e para a tomada de consciência dos elementos que não podem nos escapar e dos quais, enquanto humanos, não poderemos nos esgueirar também. A Morte é um componente invariável dos assuntos que nos dizem respeito em algum momento e, ainda assim, seguimos sempre desprevenidos para a sua súbita chegada, exagerando-a com cores catastróficas, rolando no chão como um argentino numa dividida mais dura. Contratamos carpideiras para simularem tristeza em relação à Morte, vejam só.

                        Tanto é verdade que o assunto transborda poesia que não me deixam mentir Casimiro de Abreu, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, Vinícius, Florbela Espanca, Lord Byron, Rimbaud, Mário Quintana e outras dezenas de talentosos poetas. Torquato Neto, outro artista notável, foi se encontrar voluntariamente com a Morte, um dia após completar 28 anos, em 1972. Sua morte inspirou uma canção arrebatadora de Caetano, chamada “Cajuína”, que começa com “Existirmos: a que será que se destina?”. Mais que isso, Torquato deixou um bilhete carregado de lirismo como saudação final aos que aqui ficaram em suas vidas, inclusive citando Thiago, seu filho de dois anos de idade à época, recado que dizia exatamente o seguinte: “FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e, enquanto me contorcia de dores, o cacho de banana caía. De modo que FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”. Poesia e Morte de mãos dadas, combinando feito queijo e goiabada.

                        E veja que ainda resolvi não falar aqui de “Construção”, do Chico, não falei de “Canto para a minha Morte”, de Dom Raulzito, não comentei a lindíssima “There is a light that never goes out”, dos Smiths (que ouço aqui agora, sem moderação), não falei da já batida (mas terna e mágica) “Tears in Heaven”, do Clapton, não citei os textos (sobre o assunto) do Pessoa, do Goethe, de Eurípedes, do Baudelaire, do Bocage, não falei de Dante, de Castro Alves, de Sêneca, de José de Anchieta, como também não enumerei os ótimos textos bíblicos acerca do embaraçoso, mas necessário e agudamente poético tema. Nós morremos todos os dias, caro leitor. E ainda há os que morrem muito mais, conforme ironizou o escritor peruano Luis Felipe Angell, mais conhecido pelo pseudônimo de Sofocleto: “os que mais morrem são os que não têm onde caírem mortos”. No fim das contas, ninguém sai vivo daqui, como cantou aquele roqueiro que também foi se encontrar com Ela, fechando as portas para a vida.

                        O único relato sobre alguém ter enganado ou ludibriado a Morte não é propriamente um relato, mas mitologia, ou seja, criação artística da mente humana, algo semelhante às promessas que fazemos a nós mesmos sobre o verdadeiro pós-morte. Sísifo fez isso algumas vezes, ludibriando Tânato (a personificação da Morte) e Hades (deus dos mortos), mas note que de nada valeu a esperteza (muito pelo contrário), já que Sísifo foi condenado a rolar uma pedra pesadíssima de mármore até o cume de uma montanha por toda a eternidade, com um detalhe: sempre que chegava ao topo da montanha, a pedra era irresistivelmente atraída de volta para baixo, fazendo Sísifo reiniciar a sua tarefa, ou seja, o evento repetitivo de alçar novamente a enorme pedra de mármore ao topo, repetindo a tarefa ad eternum, sem evolução ou perspectiva de algo melhor para sua vida. Sísifo desejava diariamente se encontrar com a Morte por conta de estar fadado a essa vida desgraçada. Alguma semelhança com o que acontece na vida da maioria das pessoas em relação ao trabalho e às obrigações cotidianas, caro leitor? Deixemos para lá, pois isso é um assunto para outro dia.

                        “Senta na janelinha e apressa-te em apreciar essa viagem”, diria Ela, se pudesse falar. Porque a noite e seus sortilégios hão de descer.

Câmara Municipal de Ibitinga

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