Logo Portal Ternura
16/09 - IBITINGA-SP
° °
Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

PERDEDORES E PERDIDOS


Comecei o dia com a notícia de que Dylan será laureado com o Nobel de Literatura e cismei que esse seria o assunto do nosso papo semanal aqui. Café (pouco, muito pouco) e leituras obrigatórias. Dia frenético e vertiginoso. À noite, sento para escrever e eis que uma postagem de rede social derroga o meu projeto inicial para hoje como uma bola de demolição: meu querido amigo Márcio Scheel fez uma postagem sobre o assunto e qualquer intenção de produção textual vai à lona quando confrontada com aquele primor, que deve ter saído com um desembaraço irritante. Bob Dylan adoraria, ainda que sua carta Super Trunfo não seja a Literatura. Procure no Facebook, leitor. Vale muito a pena. Scheel termina com um petardo: “a questão não é se Dylan merece ou não o Nobel. É se esse prêmio que está aí, distinguindo uma boa dose de literatos nos últimos vinte anos, merece o Dylan”.

                       Plano B aqui: para o texto e para o drink. Chá de menta e um assunto indigesto, daqueles que ficamos protelando para tocar, sabe? Vou apelar para um famigerado discurso como mote. Todo mundo se lembra que a corrida eleitoral pela cadeira de Presidente dos Estados Unidos (do Planeta, diriam alguns) em 2008 foi uma das mais importantes em todos os tempos, sobretudo por conta da grande crise financeira daquele ano. Nas urnas, as prévias entre a provável próxima presidenta dos EUA Hillary Clinton e o atual presidente Obama, no Partido Democrata, foram mais acirradas do que as eleições propriamente ditas, na verdade. O democrata Barack Obama superou o republicano John McCain tanto nos votos populares quanto no Colégio Eleitoral, mas não é isso que me interessa hoje. Refiro-me ao fato histórico para resgatar o memorável discurso de reconhecimento de derrota de McCain, inspirador e primordial em dias de guerra fria, como os que vivemos atualmente. Minha trilha sonora de hoje não poderia ser outra. “How many times can a man turn his head and pretend that he just doesn't see? The answer, my friend, is blowin' in the wind”. Clássico do premiado do dia.

                       Perder é fundamental, saber perder também. Basta perguntar a si mesmo, caro leitor, de quantas derrotas foi feita a sua última vitória. E não me refiro apenas àqueles acontecimentos peremptórios da nossa apressada existência. Pense também em trivialidades: na votação pelo jantar em sua casa, na final do campeonato municipal de várzea, no emprego passado ou na partida do seu time de futebol, que parecia uma barbada... perde-se, reconhece-se a derrota e o processo todo recomeça. Vamos ao primeiro trecho do discurso de John McCain, em novembro de 2008, no Arizona, logo após a irreversível derrota nas urnas: “Há pouco, tive a honra de telefonar para o senador Barack Obama para parabenizá-lo. Em uma disputa tão longa e difícil quanto foi a dessa campanha, o sucesso dele demanda meu respeito por sua habilidade e perseverança. (...) O senador Obama alcançou um grande feito para si mesmo e para este país. Eu o aplaudo por isso e ofereço a ele meus sinceros sentimentos, por sua avó não ter vivido para ver este dia. Embora nossa fé nos assegure que ela repousa na presença do Criador e está muito orgulhosa do bom homem que ela ajudou a criar. O senador Obama e eu tivemos e discutimos sobre nossas diferenças, e ele prevaleceu. Sem dúvida, muitas dessas diferenças permanecem. Estes são tempos difíceis para o nosso país. E eu prometo a ele esta noite fazer tudo em meu poder para ajudá-lo a nos liderar através dos muitos desafios que vamos encarar. Peço a todos os americanos que me apoiaram que se juntem a mim não apenas para parabenizá-lo, mas para oferecer ao nosso próximo presidente nossa boa vontade e nossos esforços mais honestos para encontrar modos de nos unirmos, a fim de efetuarmos os compromissos necessários para superar nossas diferenças e ajudar a restaurar nossa prosperidade, defender nossa segurança em um mundo perigoso e deixar para nossos filhos e netos um país melhor e mais forte do que o que herdamos”.

                       A citação é longa, mas imprescindível. E o assunto de hoje está fraternalmente unido ao da semana passada, quando falei sobre a “desculpa”. Assumir culpas é tão improvável em nossa sociedade quanto reconhecer derrotas, principalmente quando falamos em política. Quem consegue estabelecer uma conexão mínima entre o discurso acima e o que experimentamos repetidamente no Brasil desde sempre? Quem se lembra da última vez que um derrotado nas urnas seguiu trabalhando em prol da sua coletividade, mesmo sem usufruir da máquina pública e das benesses, vantagens e regalias por ela fornecidas? Você pode estar aí pensando, leitor, que o discurso do McCain esteja absolutamente repleto de cinismo, desfaçatez e hipocrisia, o que não me interessa nenhum pouquinho, sinceramente. Talvez seja problema do Dylan e dos demais estadunidenses, não meu ou seu. Utilizo a fala do republicano como modelo ideal para reconhecimento e seguido comportamento após uma derrota deste tipo. As pessoas não são proprietárias de cidades, Estados ou países. Ainda que fossem, não deveriam seguir os quatro anos subsequentes às derrotas pelas quais passaram trabalhando enérgica e infatigavelmente para que as coisas andem muito mal com toda a comunidade. Vimos isso vergonhosamente a nível nacional (há pouquíssimo tempo – apenas começamos a provar o fel que jorra das consequências pela birrinha desastrosa dos maus perdedores) e seguiremos assistindo a esse filme de terror em uma quantidade assustadora de municípios Brasil afora.

                       Imaginem o costume nacional aplicado a uma cidade fictícia, que podemos chamar de Brasilândia, cuja população total seria de cinquenta mil pessoas, dado também inventado nesta suposição rápida. Em nossa cidade imaginária, no último dia 02 de outubro, dos votos considerados válidos, o candidato vencedor somou 55% dos votos, contra 45% do candidato derrotado. Segundo a lógica hedionda e abjeta que assola o nosso país há muito tempo, teríamos um grupo político representante de 45% da cidade “trabalhando” implacavelmente, de 2017 a 2020, para que a prosperidade, o desenvolvimento e o progresso não acontecessem. Bizarro? Contraditório? Incoerente? É o que acontece de um modo desalentador e não me parece que isso esteja próximo de uma mudança, muito pelo contrário. O pensamento ensimesmado e egocêntrico se amplifica e se dilata assustadoramente. Parece que Dylan entende do que estou falando, apesar de estar se referindo a uma derrota muito maior e mais avassaladora em sua linda e dura “Masters of War”: “You lie and deceive... you want me to believe, but I see through your eyes and I see through your brain like I see through the water that runs down my drain”.

                       Esteja onde estiver, exija do seu candidato a postura de John McCain nas eleições de 2008, caro leitor. Nunca mais aceite sujeitos públicos que não reconhecem suas derrotas ou que trabalhem contra a coletividade quando não estão devidamente investidos de poder. Ainda que não ocupem cargos políticos, os homens podem seguir transformando positivamente a sociedade, caso estejam mesmo interessados no bem comum e, principalmente, no amparo aos mais pobres e necessitados. Não queira que tudo vá mal porque o candidato de sua predileção não se elegeu e cobre do derrotado o diálogo com a oposição, pois podemos discordar em ideias, ideais, projetos e conceitos, mas não podemos mais compactuar com comportamentos tacanhos, mesquinhos e perversos, que paralisam e estagnam as cidades. Para completar, mais uma palhinha de McCain: “É natural, nesta noite, sentir algum desapontamento. Mas amanhã teremos de seguir adiante e trabalhar em conjunto para colocar nosso país em movimento de novo. Desejo boa sorte ao homem que foi meu oponente e será meu presidente”.

                       A resposta está soprando no vento, vencedores e derrotados. Ouçam com atenção e aprendam com Bob.

Câmara Municipal de Ibitinga

Últimas colunas

José de Paiva Netto

José de Paiva Netto

As graves consequências dos diversos tipos de suicídio

As graves consequências dos diversos tipos de suicídio
Antonio Tuccílio

Antonio Tuccílio

Precatórios: o calote precisa ter fim

Precatórios: o calote precisa ter fim
José de Paiva Netto

José de Paiva Netto

Sustentabilidade pela Economia Celeste

Sustentabilidade pela Economia Celeste