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20/09 - IBITINGA-SP
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Eduardo Coleone

Eduardo Coleone

Professor universitário, escritor e radialista.

PRECISAMOS FALAR SOBRE... OUVIR


Uma volta veloz pelos sites de notícias: o mesmo acontecimento é narrado de maneiras tão variadas que, como num passe de mágica midiática, temos vinte ou trinta histórias completamente distintas, todas para uma única ocorrência. Herói ou bandido esse protagonista? Você pode escolher, leitor. Teria até graça, se os meios não fossem fontes de informação, com concessões públicas para tal. Nas redes sociais, as pessoas estão tratando de variações meteorológicas e isso é tão enfadonho e aborrecido, que eu prefiro deixar para lá: o calor e essas pessoas. Ouvia Muddy Waters até agora, mas o pai do Chicago Blues vai dar espaço à trilha sonora necessária para o nosso papo de hoje: sai o gênio de Mississippi, entra Jason Molina. Chá com limão aqui, pois o café e eu andamos em rota de colisão. Saudades, amigo. A gente ainda volta a se bicar.

                Jason Molina me foi apresentado por um querido amigo e eu nunca tinha ouvido nada do cara antes, confesso. Agora aqui toca “It must be raining there forever”, uma das canções mais lúgubres e incômodas que já ouvi. Combina com o assunto, que é daqueles que você protela o quanto pode, foge o quanto dá, mas precisamos falar sobre “ouvir”. Ninguém mais ouve ou presta atenção nas pessoas ao redor. O expediente mais comum no nosso cotidiano quando nos referimos a interlocuções pessoais, diálogos pelo telefone ou mesmo conversas por redes sociais é o fato das pessoas falarem (ou teclarem) e não ouvirem (lerem) seus interlocutores. Enquanto seu amigo conta, por exemplo, sobre uma terrível dor no braço esquerdo, você já prepara a sua lancinante e insuperável dor nas costas e joga na cara do sujeito, como se fosse um zap escondido na manga. Não era uma competição de enfermidades, sabia? Aqui Molina machuca quem puder ouvir: “Look in my eyes and see if it's still true it all used to. With all that blue that you carry around in your heart. It must be raining there forever”.

                Em setembro de 2014, surgiu no Brasil uma campanha denominada “Setembro Amarelo”, atividade que, como quase tudo neste país, a maioria da população ouviu falar, mas não se interessou em se aprofundar acerca. Desenvolvida no país pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a ideia é dar voz às pessoas que mais precisam falar, que mais precisam de ouvidos atentos: os indivíduos depressivos, muito propensos ao suicídio. E eles são muitos, prezado leitor. Quem nunca viu um amigo postando algo do tipo “qualquer dia eu sumo”, “não aguento mais” ou “queria morrer”? Eis aí um severíssimo candidato à tragédia premeditada, esperando o seu “o que houve?” mais sincero como poderoso fármaco. E entenda que ele não quer ouvir ou ler que você está pensando em sumir também. O seu amigo quer ser ouvido, ele precisa que você deixe seus problemas dez minutos ali na estante mais próxima e o ouça atentamente, que diga que se importa com ele. Mais que isso: que se importe verdadeiramente com a sua situação.

                A “Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio” difunde a campanha mundial também no mês de setembro e parcerias muito interessantes vêm surtindo efeitos alentadores, como a campanha promovida pelo Facebook e pelo CVV em conjunto, que consiste numa ferramenta disponibilizada para os usuários desta rede social, que é fácil de usar e parece muito eficaz: ao notar que um amigo postou um conteúdo que possa indicar tendências ao suicídio, à automutilação ou algo do tipo, o usuário vai clicar numa seta no canto superior direito da publicação e, de maneira absolutamente confidencial, o amigo depressivo receberá um aviso do Facebook, oferecendo diversas linhas de ajuda, como textos de apoio, a proposta de uma ligação do CVV, de chat ao vivo ou de enviar uma mensagem a um amigo sobre o assunto. Aqui o chá acabou e Molina canta “Some things never try” agora, outra bomba de efeito moral, que deve ser ouvida em doses homeopáticas: “Till every part of me was a place to hide. Some things never get better, some things never try. Pain in my heart finally running me out of my life. Some things do nothing but try”.

                Por mais espinhoso que seja o tema, é caso de saúde pública e precisa ser pensado/discutido frequentemente. As taxas de suicídio não param de subir no Brasil e temos em média 30 brasileiros tirando a própria vida por dia. E se alguns ainda confundem pequenas tristezas com doença ou utilizam socialmente o arquétipo porque parece ser bonito e charmoso um sujeito melancólico que ouve Legião, Coldplay e Smiths, a depressão verdadeira é muito séria, intensa e está ligada ao desequilíbrio químico de neurotransmissores, é uma questão física, que precisa de acompanhamento médico adequado. Cansaço frequente, distúrbios do sono, problemas digestivos, mudanças de apetite e de peso, dores generalizadas e imunidade baixa são sinais, ou melhor, são convites para uma visita urgente ao seu doutor.

                Quanto ao outro, ouça mais e faça isso sinceramente. Detesto utilizar orações imperativas em meus textos, mas tem muito mais súplica do que ordem nesta sentença. As pessoas precisam ser ouvidas atenciosamente, precisam saber que são importantes e que deve haver um jeito de escalarem os abismos aos quais foram catapultadas. Desligo Jason Molina aqui e arrisco ouvir a celebração entusiasmada de “Tins e Bens e tais”, como sugere Caetano.

                A esperança está agonizando. E não podemos ignorar o seu chamado.

Câmara Municipal de Ibitinga

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