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21/09 - IBITINGA-SP
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Currículo de estrela, humildade de iniciante: a história de Rodolfo Vieira, o "Caçador de Faixa-Preta"

Um dos maiores nomes da história do jiu-jítsu, lutador é admirado até pelo maior rival no tatame. Após cinco títulos mundiais, brasileiro, invicto no MMA, estreia no UFC neste sábado


A entrevista com Rodolfo Vieira no hotel onde estão hospedados os lutadores escalados para o UFC Montevidéu, sábado, no Uruguai, dura 20 minutos. Diante da câmera, o peso-médio, recém-contratado pela organização, demonstra a habitual serenidade para falar, respondendo a todas as perguntas - inclusive sobre seu adversário, Oskar Piechota - no mesmo tom. Quando o bate-papo com o Combate.com termina, vem o desabafo.

- Preciso melhorar, aprender a dar entrevista - dispara Rodolfo, cuja agenda de compromissos com a mídia irá aumentar devido à amplitude do UFC em relação ao jiu-jítsu.

O pensamento de Rodolfo vai ao encontro do seu perfil como lutador. Quem o conhece bem - como o seu mestre no jiu-jítsu, Júlio César, líder da academia GFTeam - sabe que a vontade de aprender e evoluir é uma característica que acompanha o brasileiro, nascido e criado em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Rodolfo Vieira brilhou envergando o quimono — Foto: Eduardo Ferreira

Rodolfo Vieira brilhou envergando o quimono 

- O Rodolfo sempre foi diferenciado, não só pelo talento, mas também pela perseverança. Ele sempre gostou de treinar, sempre quis aprender. Isso o fez chegar onde chegou. Acreditou que dava para viver do esporte e foi em frente. Ele nunca quis trabalhar, o trabalho dele sempre foi treinar. O Rodolfo vai ser um sucesso (no MMA), não tenho dúvidas, por toda a determinação e humildade que tem. Está sempre querendo aprender. É um esporte novo, diferente do jiu-jítsu, mas por ser perseverante, ele terá muito sucesso no MMA.

O currículo do pentacampeão mundial Rodolfo Vieira no jiu-jítsu - tem ainda títulos pan-americanos, europeus e do ADCC (maior evento de luta agarrada do esporte) - é suficiente para impressionar até os leigos na arte suave. Entretanto, é difícil imaginar que tantas conquistas vieram de um atleta que, em 2002, quando deu os primeiros treinos, não gostou do esporte.

- Eu não gostava muito, comecei treinando duas vezes na semana, eu tinha 13 anos, em 2003, treinava para emagrecer, não era algo que eu amava. Depois que eu lutei a primeira vez, eu peguei o gosto. Fui campeão e gostei muito daquela sensação. Aí que foi difícil, meu pai pagava um valor na academia e aí quando eu pedi para me matricular para treinar todos os dias, ele deu uma reclamada, porque ficou mais caro. Tive sorte de ter pais que me apoiaram até eu ganhar dinheiro com o jiu-jítsu, o que era muito difícil. Hoje está um pouco mais fácil, porque o esporte está se profissionalizando cada vez mais. Não tenho do que reclamar, meus pais sempre me apoiaram com tudo, com inscrição, com passagem, com dinheiro para comer, eu tive sorte, pedia só o básico, nunca fui um adolescente de querer coisas caras, eu gostava, mas a prioridade eram os custos do jiu-jítsu - explicou o atleta, que está morando em Orlando, na Flórida, e treina na Fusion X-Cel.

Rodolfo garante que as maiores dificuldades eram os treinamentos em si - os pais faziam de tudo para dar suporte a ele e à irmã Carol Vieira - também atleta de ponta da arte suave. Maria Cristina Vieira Srour recorda a batalha para conseguir quimonos e suplementos.

Carol, Rodolfo, Debora, Elias e Maria Cristina — Foto: Arquivo Pessoal

Carol, Rodolfo, Debora, Elias e Maria Cristina

- Realmente, no início, foi bem difícil. Quimono não é barato. No início nao tinha suplementação, mas tinha um quimono para treinar e um para competir. Esse de treino, conforme foi treinando com mais intensidade, era lavar, secar no ferro, porque não dava para ter dois. Colocava remendo, cerzia... Não tinha apoio nenhum de nada. Ele tinha o "paitrocínio". Vieram as competições, juntou um dinheirinho, pagava uma inscrição, a família se reunia... O tio, além do pai, a avó, a irmã, todo mundo chegava junto porque era o que ele queria. Ele só foi ter patrocínio quando tinha nome. Eu ia nas lojas de suplemento, pedia apoio e ninguém dava. Teve uma hora que ele falou: "Mãe, não quero mais que a senhora vá fazer isso, porque sou atleta. Vou ganhar o mundo, levar o nome do Brasil ao pódio, eles que têm que me procurar. Não quero mais que a senhora bata de porta em porta". Foi complicado, mas o resultado mostra que valeu a pena - diz a dona de casa, que também é mãe de Debora Vieira Srour.

Em 2008, houve um momento - ainda na faixa-marrom - que o pai de Rodolfo, Sérgio Elias Srour, queria que o filho, apelidado em casa de Dodô - fizesse uma faculdade - afinal, o futuro no esporte é sempre uma incógnita. Júlio César pediu um ano de espera e, em 2009, veio a guinada.

- O pai me falou que queria que o Rodolfo fizesse faculdade. Eu falei: "Vamos segurar um pouquinho, vamos esperar um ano, porque acho que esse garoto vai viver muito bem do jiu-jítsu". E ele arrebentou, ganhou todos os campeonatos, como o Brasileiro. Ali ficou marcado, mostrou que não seria só mais um, que seria um cara diferenciado dentro do jiu-jítsu. Ele ganhou a seletiva para o Mundial de Abu Dhabi, em Porto Alegre, de alguns faixas-pretas, como o Bruno Bastos e o (Antônio) Braga Neto... Ele foi para o Mundial de Abu Dhabi e ganhou de todos os faixas-pretas. E aí veio o apelido de "Caçador de Faixa-Preta".

Rodolfo Vieira recebe a faixa preta de jiu-jítsu do mestre Julio César — Foto: Arquivo Pessoal

Rodolfo Vieira recebe a faixa preta de jiu-jítsu do mestre Julio César

Editor da Revista Tatame na época, Eduardo Ferreira estava in loco na cobertura do Mundial, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. E conta que, de fato, foi impressionante ver o faixa-marrom "varrer" nomes consagrados.

- Ele impressionou pelo vigor físico, pela explosão e por ter um jiu-jítsu muito justo. Ele mostrou que tinha um potencial, um futuro enorme, porque tinha muita gente boa, como o Bráulio Estima, que era campeão mundial, era consagrado. No primeiro ano de faixa-preta - foi graduado no aeroporto, na volta de Abu Dhabi - ganhou peso e absoluto (categoria que engloba atletas de todas as divisões). A gente não está acostumado a ver atletas que chegam na faixa preta e brilham. São poucos, como Ronaldo Jacaré e Roger Gracie. O próprio Buchecha não saiu se destacando no primeiro ano. O Rodolfo tem um jiu-jítsu de muita pressão, não perde posição. Fazia campeonatos perfeitos, finalizava todo mundo. Sempre jogou para "pegar", é difícil ver ele ganhar nos pontos. A única finalização entre os dois é do Rodolfo.

O susto da futura esposa: "Quem esse cara é no jiu-jítsu?"

Se para o grande público, o rosto de Rodolfo Vieira ainda é desconhecido, no jiu-jítsu ele é uma celebridade há quase uma década - os gritos de "Rodolfo vai te pegar" ecoaram em ginásios pelo Brasil e no exterior. Esposa do faixa-preta, Juliana Marques casou-se com ele há um ano, contudo, ela já fez parte do grupo que sequer sabia quem era o atleta.

Rodolfo Vieira está casado com Juliana Marques — Foto: Arquivo Pessoal

Rodolfo Vieira está casado com Juliana Marques

- Eu vi a proporção do nome dele quando a gente viajou para São Paulo nos três meses que namoramos. Fui com ele me um evento de jiu-jítsu e, só para entrar, levamos uma hora. Era muita gente aglomerada em volta dele. Eu falei: "Que isso? Quem esse cara é no jiu-jítsu (risos)?". Eu sabia que ele fazia jiu-jítsu, mas não sabia disso. Joguei Rodolfo Vieira no Google e apareceram várias fotos, matérias... Como assim, cara? Na casa dele eu via medalha, troféu, mas sou totalmente leiga no jiu-jítsu até hoje. Eu prefiro MMA, gosto de porrada. Ficamos uma hora do lado de fora do evento. Era foto, autógrafo, ele não aguentava mais sorrir. Eu pensei: "Nossa, caraca, ele é muito grande no jiu-jítsu". Ali eu me assustei: "Estou com um cara bem conhecido do jiu-jítsu (risos)" - relembra, com bom humor.

Nascida e criada no mesmo bairro que Rodolfo Vieira, em Campo Grande, Juliana conta que jamais havia visto o lutador. Por intermédio de um amigo em comum - que inventou um interesse entre Rodolfo e Juliana - se conheceram. Hoje, o chama de lindo, mas não foi bem assim a primeira impressão.

- Esse nosso amigo me ligou e falou: "Juliana, o Rodolfo está muito a fim de ficar com você". Eu falei: "Não viaja, não quero, não acho ele bonito". E disse ao Rodolfo que eu tinha falado que eu estava muito a fim dele, sendo que nem eu e nem o Rodolfo tínhamos falado nada. (...) Fomos para o posto, a gente se viu, eu fiquei sem graça, e ele veio me cumprimentar. Eu fiquei tensa, sabia que ele queria ficar comigo, apesar de ele não ter falado nada. Eu fiquei nervosa... Falei: "Não queria ficar com ele, não acho ele bonito, mas agora eu quero ficar". A gente estava muito bêbado nesse dia, cada um foi para a sua casa, porque tinha uma festa à noite. Ele queria me embebedar mais ainda, jogando vodka no copo (risos). Ele conversava com os amigos querendo me dar a mão. Pensei: "Ele é maluco, nem ficamos e quer me dar a mão".

- A partir daí a gente ficou, em um mês ele me pediu em namoro. Namoramos três meses - eu sabia que ele iria para os Estados Unidos -, foram oito meses namorando à distância. Ficamos noivos em um ano e casamos. Hoje eu acho ele muito lindo. Ele é super carinhoso. Me faltam palavras, é um cara mil. Nem em outra vida eu acharia um homem tão bom como ele. Foi assim que ele me conquistou, com a simplicidade, é super humilde. Depois que eu vi a grandiosidade.... ele poderia ser um babaca. É um cara tão de bom coração.

Amizade com o maior carrasco da carreira

A simplicidade de Rodolfo Vieira está, também, no relacionamento com colegas de tatame. O "bom coração" do faixa-preta, citado por sua esposa, inclusive, guarda um lugar para um amigo - que na verdade foi seu principal rival e carrasco nas competições da arte suave: Marcus Almeida, o Buchecha. O retrospecto é favorável ao atleta da Checkmat (5 a 1), porém, isso jamais abalou a relação deles.

- O Rodolfo foi o maior rival da minha carreira competitiva, lembro que no meu primeiro ano na faixa preta, ele arrancou aquele sonho de mim de ser campeão mundial. Depois disso ele acabou me ajudando, porque treinava pensando em vencê-lo. Ele me fez crescer. Fico feliz de vê-lo no UFC, na torcida. Ele poderia estar fazendo muito no jiu-jítsu, mas tinha esse sonho e está empenhado, focado. Ele vai chegar aonde quiser e logo, logo veremos o Rodolfo disputar o cinturão.

Marcus Buchecha e Rodolfo Vieira: rivalidade só no tatame — Foto: Eduardo Ferreira

Marcus Buchecha e Rodolfo Vieira: rivalidade só no tatame

Os encontros nos campeonatos são cada vez mais raros devido aos caminhos distintos - Buchecha segue nos tatames. Entretanto, nas redes sociais, a zoeira não para.

- A gente sempre se fala. A maioria das vezes é um zoando o outro no Instagram, às vezes, trocamos ideia. Eu sempre brinco com as fotos dele. São aquelas sem camisa, com uma frase motivacional. Eu falo: "Está apelando, pô (risos)". Eu zoava muito isso. Falei bastante quando ele assinou com o UFC, fiquei amarradão. Ele mora em um estado (Flórida), eu moro em outro (Califórnia), não nos vemos nas competições, mas nos falamos sempre que dá . É um torcendo pelo outro. Foram vitórias e derrotas para os dois lados, mas a amizade continuou.

O Combate e o Combate Play transmitem o UFC Montevidéu ao vivo e com exclusividade neste sábado, a partir de 18h (horário de Brasília). O Combate.com transmite as duas primeiras lutas em vídeo aberto ao vivo e acompanha o card inteiro em Tempo Real. Confira o card completo:

UFC Montevidéu
10 de agosto, no Uruguai
CARD PRINCIPAL (21h, horário de Brasília):
Peso-mosca: Valentina Shevchenko x Liz Carmouche
Peso-meio-médio: Vicente Luque x Mike Perry
Peso-pena: Luiz Eduardo Garagorri x Humberto Bandenay
Peso-meio-pesado: Volkan Oezdemir x Ilir Latifi
Peso-médio: Rodolfo Vieira x Oskar Piechota
Peso-pena: Enrique Barzola x Bobby Mofett
CARD PRELIMINAR (18h, horário de Brasília):
Peso-meio-médio: Gilbert Durinho x Alexey Kunchenko
Peso-pesado: Ciryl Gané x Raphael Bebezão
Peso-palha: Tecia Torres x Marina Rodriguez
Peso-mosca: Rogério Bontorin x Raulian Paiva
Peso-galo: Geraldo de Freitas x Chris Gutierrez
Peso-leve: Rodrigo Kazula x Alex Leko
Peso-mosca: Veronica Macedo x Polyana Viana

Fonte:https://sportv.globo.com/site/combate/noticia/curriculo-de-estrela-humildade-de-iniciante-a-historia-de-rodolfo-vieira-o-cacador-de-faixa-preta.ghtml


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