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Tragédia de Hillsborough faz 30 anos: relembre os erros, as mudanças e a busca por justiça

Até hoje apenas uma pessoa foi considerada culpada; chefe do policiamento não teve veredito


Eram 15h06 do dia 15 de abril de 1989 quando o juiz apitou o fim da partida que até hoje não terminou. O jogo entre Liverpool e Nottingham Forrest, interrompido ainda nos minutos iniciais, seria retomado quase um mês depois. Mas aquela semifinal da Copa da Inglaterra hoje completa 30 anos viva na memória dos ingleses como sinônimo da maior tragédia da história do futebol do país. Três décadas de saudades e de busca por justiça para as 96 vítimas de Hillsborough.

Superlotação em "geral" terminou com 96 mortos no estádio de Hillsborough em 1989 — Foto: Getty Images

Superlotação em "geral" terminou com 96 mortos no estádio de Hillsborough em 1989 

No início deste mês, as famílias dos torcedores mortos passaram por mais uma frustração. O júri não chegou a um veredito sobre o chefe de polícia responsável pela segurança da partida, David Duckenfeld – que, se condenado, pode enfrentar prisão perpétua. A promotoria vai pedir um novo julgamento.

O único considerado culpado até agora foi o ex-secretário do Sheffield Wednesday, proprietário do estádio de Hillsborough. A pena dele será anunciada em maio, mas será de no máximo dois anos.

Graham Mackrell é o único considerado culpado até hoje - e ficará no máximo dois anos na prisão — Foto: Reuters

Graham Mackrell é o único considerado culpado até hoje - e ficará no máximo dois anos na prisão

Uma série de erros

Um dos estádios da Copa do Mundo de 1966, Hillsborough foi escolhido pela Football Association (FA) para sediar a partida entre Liverpool e Nottingham Forrest, duas das maiores potências dos anos 80, por se tratar de um campo neutro.

No auge no hooliganismo e à sombra de outra tragédia, a de Heysel, quase todos os estádios tinham grades separando as arquibancadas do gramado. Mas a barreira que deveria ser de proteção ali se transformaria em armadilha diante da superlotação do setor conhecido como Leppings Lane Terrace, uma espécie de “geral” na qual era possível assistir aos jogos em pé.

Ali havia sete catracas para controlar a entrada de cerca de 10 mil torcedores, e só uma estaria funcionando propriamente. O funil que se formou gerou aglomeração do lado de fora, e a solução apresentada para minimizar a confusão que se formava no entorno foi abrir um dos portões de saída.

Torcedores foram prensados junto às grades que separavam arquibancadas do campo — Foto: Getty Images

Torcedores foram prensados junto às grades que separavam arquibancadas do campo 

Não houve o controle devido, e a arquibancada ficou superlotada. A polícia demorou a entender que quem tentava saltar a grade buscava se salvar e conteve num primeiro momento o que pensou ser invasão de campo. Quem não conseguiu pular e estava junto à grade foi pressionado, esmagado, asfixiado.

Noventa e seis torcedores do Liverpool morreram e mais de 700 ficaram feridos - para fins judiciais, apenas 95 mortes são contabilizadas, pois um dos torcedores morreu quase um ano após a tragédia. Acredita-se que pelo menos 40 vítimas fatais poderiam ter sido salvas se tivessem recebido atendimento correto ainda no estádio.

Uma nova forma de torcer na Inglaterra

Um inquérito foi aberto para apurar responsabilidades e apontar o que deveria mudar para evitar novas tragédias. O documento, publicado em definitivo em janeiro de 1990, de autoria do Lord Justice Taylor, ficou conhecido como Relatório Taylor.

Ele concluiu que a principal causa para o desastre foi a falha no controle de segurança. Leppings Lane Terrace era dividido em pequenos setores gradeados. Quando o portão de saída foi aberto para a entrada dos torcedores, os mesmos se dirigiram a áreas centrais da arquibancada, que já estavam lotadas. Caso os túneis de acesso a elas estivessem fechados, eles poderiam ser direcionados a áreas mais laterais das arquibancadas, por exemplo.

Jogos da Premier League hoje têm fãs perto do campo  e sem grades separando campo e arquibancada — Foto: Reuters

Jogos da Premier League hoje têm fãs perto do campo e sem grades separando campo e arquibancada

O Relatório Taylor também publicou recomendações para tornar os estádios mais seguros aos torcedores. Elas se tornaram lei. As grades foram abolidas, os números de catracas recalculados, e tornou-se obrigatório que todos os jogos de times da primeira e da segunda divisões do país fossem em estádios com assentos para todos os torcedores. As gerais foram extintas.

Todo o processo de modernização do futebol inglês culminou na formação da Premier League, hoje o campeonato de futebol mais rico do mundo e referência em termos de segurança para os torcedores.

- Quando você cria estádios (para torcedores) 100% sentados, com outros desenvolvimentos, a introdução de circuitos internos de câmeras, contagem de pessoas... Condições que tornaram mais seguro ir ao futebol. Isso teve um efeito transformador e realmente mudou a natureza da experiência ao vivo. Houve menos hooliganismo, tornou-se um esporte mais orientado para a família, os preços dos ingressos subiram. Isso criou uma tendência no jogo de uma perspectiva comercial. – disse Phil Carling, diretor global de futebol da agência de marketing esportivo Octagon.

Mais de 20 anos até pedirem desculpas

Se a tragédia revolucionou a estrutura do futebol inglês já na década seguinte, as feridas abertas nas famílias das vítimas latejam até hoje. Não bastasse a perda dos entes queridos, as autoridades e parte da mídia na época retrataram os próprios torcedores do Liverpool como culpados pela tragédia. Alegavam que os fãs estavam bêbados e causaram o tumulto.

O jornal The Sun, que publicou uma matéria afirmando que torcedores urinaram sobre os policiais e que as equipes de salvamento teriam sido agredidas durante o trabalho, sofreu um forte boicote da população. A circulação do tabloide na região ainda hoje é cerca de apenas 1/10 do que era antes da fatídica cobertura.

Capa do The Sun em 1989, culpando torcedores; e em 2012, reconhecendo o erro — Foto: Reprodução / The Sun

Capa do The Sun em 1989, culpando torcedores; e em 2012, reconhecendo o erro

Essa postura hostil para com as vítimas se sustentou até setembro de 2012, quando relatórios sobre a tragédia tornaram-se públicos e expuseram os erros e responsabilidades das autoridades na condução do episódio. Segundo ele, mais de 160 depoimentos teriam sido alterados. A Football Association e até o Primeiro Ministro David Cameron pediram desculpas públicas às famílias dos mortos.

As punições nos tribunais, no entanto, ainda não são realidade. Depois de 10 semanas de julgamento na corte de Preston, os 12 jurados deliberaram por 29 horas até informarem o juir Sir Peter Openshaw de que seria impossível atingir uma maioria de 10 para alcançar um veredito sobre David Duckenfeld, o ex-policial que supervisionava a segurança da partida. A promotoria pedirá um novo julgamento. E as famílias seguem acompanhando a apuração das responsabilidades.

David Duckenfield era o policial responsável pela segurança do jogo e não tem veredito — Foto: Reuters

David Duckenfield era o policial responsável pela segurança do jogo e não tem veredito

Fonte:https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-ingles/noticia/tragedia-de-hillsborough-faz-30-anos-relembre-os-erros-as-mudancas-e-a-busca-por-justica.ghtml


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